Ser ouvida e respeitada
Eu só quero ser tratada como um ser humano
Até os 14, 15 anos eu não sabia o que era machismo e feminismo. Eu cresci numa família de mulheres, mesmo as mulheres da minha família perdendo em número absoluto em todas as gerações. Na minha eram 4 homens e 3 mulheres.
Sempre me ouviram, sempre escutaram minhas opiniões com respeito. Os homens da minha família sempre tiveram minhas opiniões e tudo o que sai da minha boca no mesmo nível do que sai da boca deles. Minhas conversas e opiniões sempre foram tidas como dignas de serem consideradas, discutidas, dissecadas.
Desde pequena, quando eu falava algo, eu me fazia ouvir. Eu me impunha e me fazia ser ouvida. Como a minha avó, eu ganhei meu espaço dentro do respeito dos homens da minha família. Nunca senti isso como um esforço, era natural para mim, já que com o tempo eu apenas precisei existir. Também era assim na escola. Eu sempre fui ouvida com meus amigos meninos: o espaço que eu criava a primeira vez era sempre respeitado. Até mesmo jovem, com 20 e poucos e tantos anos, eu sempre fui ouvida.
Minha mãe sempre diz que criou filhos com opinião própria, que pensam por si mesmos, que reúnem informações e chegam a conclusões pessoais. Eu sempre respondi que, então, ela tinha que aguentar isso. Eu não sabia que o mundo também tinha que aguentar.
Eu não sabia que eu tinha que ser combativa o tempo todo. Que eu não poderia relaxar e só dar a minha opinião, e ser respeitada por ela. Eu não sabia que eu teria que ganhar meu espaço o tempo todo, e mesmo assim teriam homens que não aceitariam eu ter meu espaço.
Crescendo numa casa em que eu sempre tive meu espaço, em que um empurrão metafórico e retórico no outro já me dava a abertura necessária para ser eu mesma, eu não levei em consideração que teriam homens “lá fora” que não pensam igual aos homens da minha família. Que não admiram nem respeitam mulheres, que não nos tem no mesmo patamar que eles. Que nos querem caladas e concordando com eles, e vão nos testar o tempo todo pra ver se não os empurramos metaforicamente com nossas opiniões.
E eu sempre empurro. Às vezes até dou um murro ou outro. Eles não gostam disso. Principalmente sobre minhas opiniões políticas. Quando sabem que sou de esquerda, eles sempre querem me convencer de que o posicionamento político deles é o certo, apresentando inúmeros argumentos do porquê estou errada e porquê eu deveria “mudar de lado”. Eu nunca pedi essas conversas. Eu não estava conversando sobre isso. Eu nunca vou conversar sobre isso com essas pessoas. Eles simplesmente acham que é ok invalidar minha opinião, acham que eu “não sei tudo”. E quando eu devolvo a retórica, eu sou arrogante, prepotente e dona da verdade.
E sou mesmo. Esses caras não aguentariam 1 minuto dentro da minha casa. Meu irmão é o próprio Aristóteles da Alfredo Maia. Apresente um bom argumento que me faça mudar de ideia, e vou considerar. Mas não adianta falácias e opiniões vazias. Eu sempre exijo dados com fontes confiáveis. Eles não têm esses dados (até porque raramente existem).
E tem sido cada vez mais difícil encontrar alguém que simplesmente me considere como uma pessoa. Um ser humano digno de consideração. Eu tenho opiniões demais. Sou assertiva demais. Quero ir embora de lugares em que não me sinto confortável. Falo coisas estranhas e não engajo em conversas que não me interessam. Eu sei o que todos esses caras pensam de mim: chata. Estranha. Desconfortável.
Mas cada vez mais tenho preferido ser eu mesma, causar desconforto, ficar com cara de merda, do que dar meu espaço pra um homem que não me respeita. E que consequentemente eu não respeito. Pra ter meu respeito é preciso me respeitar. É assim na minha família, em que todos me respeitam. É assim com meus amigos, é assim com todas as pessoas que convivo. Todos eles me respeitam e eu respeito eles. Eu considero a opinião deles porque acho que o que eles trazem é interessante, que é leve e engraçado. E tenho certeza que eles pensam o mesmo de mim. Pelo menos, espero.


